Guardar para sempre.
O sorriso indecifrável. A epígrafe da monografia. As sabotagens baratas, as cantadas falsamente vulgares. “Se quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim”. Guardar a risada da Paula, noites regadas a Santa Isabel em Paraty. Guardar palestra do Alan Pals. Os lirismos chinfrins, as lágrimas com gostinho salgado de adeus. Guardar também as latinhas de cerveja com ar amanhecido, o livro dedicado, os e-mails da mãe. Guardar pra sempre o jeito espirituoso dele, toda a delicadeza e o abraço com gosto de “fly me to the moon”. A vontade de roubar os óculos dele só pra nunca mais olhar ninguém como olha pra mim. Guardar pra sempre a nostalgia da infância, o Tango de Rashevsky, a piada de judeu, o colo de pai. Guardar Antonio Maria “No mais tudo é menor...” e todos Xangôs. E também o cheiro do girassol, flor de laranjeira e o sussurro. Guardar sobretudo aquilo que fala da sua ausência. A consciência de liberdade, os braços abertos da Nata. Guardar o quadro do Chagall em que ele finca os pés no chão e ela voa. O convite pro samba, “se você disser que me tem amor, eu posso me regenerar”, as emoções baratas. O bliss. Guardar o jeito da Nilds entrar em casa – sempre carregada de apetrechos. Também o telefonema do irmão. Guardar o pecado, o segredo, e todo proibido realizado. A mãe Oxum, os brincos, colares e sabonetes. O recado no telefone, as 40 ligações perdidas e a música do Lenine. Pra sempre. A naftalina amorosa, as caixinhas, a capacidade de lembrar, os gritos da Bebel e Guimarães Rosa: “Minha porta é para o nascente”. Os suspiros, rebolados, pés pintados de vermelho pisando na lua do teu coração. E aquela canção que ainda vai existir. Guardar o leve torpor, a intimidade conquistada em noites de delicadeza. Uma mão na cintura e a outra no fundo da alma. Guardar o exercício da paciência, o sorriso do Murillo e a ansiedade de uns. Finais de tarde no Sachinha. As oferendas, charminhos de beira de estrada e a sensibilidade apurada . Guardar para sempre o tchachachá. Textos do Contardo Calligaris, nós duas tentando trocar a água do filtro sozinhas, a bolsa de água quente e o risinho meio cortado do Pedrinho. Os dias seguintes daquelas noites, a maluquice mais doce, o delírio mais manso. O jeito de dizer "peketita" da Carol, Dave Matthews tocando no carro. Luas minguantes, "eu, você nós dois", uma mordida no umbigo. Guardar ainda Chico cantando Mambembe, o samba na casa verde. O dedilhado no violão, o jeito de fazer birra, pra sempre. Bethânia de branco e pés descalços:"Agora tenho mais memória/ Agora tenho o que foi meu". As quatro pulando ondas no Rio de Janeiro, uma garrafa de Boazinha, happy- hours no Portuga, a mestra Gabriela Leite. O entardecer na Paulista, o último chocolate da caixa, Vinícius: " O ciúme é o perfume do amor". Davi falando francês, o cheiro de pleasures, a palavra "eloqüente", aquele jogo do Brasil com pipoca e cerveja e Caetano cantando Tieta. Guardar pra sempre ele me buscando na chuva, a exposição da Tomie, a carta que eu nunca tive coragem de entregar. Os argentinos chamucheros, uma noite em Maresias e o Marquinho carinhoso. Guardar os e-mails da Nata, o olhar enciumado borbulhante dele, a trilha sonora do banho "eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho". Guardar o "loby you", o texto de Tony, as seis horas na estrada, y todos los tamasos totales. Grampinhos de cabelo, Gaufettes e o amendoim do Xingu. Guardar ainda Kiru cantalorando Maddona, a atmosfera da casa nova, o choro com som de cachoeira e o recato no ousado decote. Guardar sobretudo o patuá ,"que dá medo do medo que dá", o gosto de saudade, a vontade de recomeçar e a leveza : "pé em Deus e fé na tábua". Axé.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Fernando Pessoa -- em clima natalino II
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Idéia é bom
... Ele tinha um tom de voz sereno e intimista. Não era muito alto nem baixo. Usava um óculos e esboçava uma futura carequinha. Tinha um brinquinho na orelha esquerda e parecia ser muito organizado. Nas aulas de música notei que os Cd´s estavam sempre numa caixa e envoltos em papel bolha. Além disso, sempre foi muito exigente com os trabalhos. Perfeccionista, não admitia erros de ortografia e tarefas fora de data.
Numa prova eu pretensiosamente finalizei minha dissertação com uma citação de Guimarães Rosa “Minha porta é para o nascente”. Ele subliminhou e escreveu em vermelho “bonito”. Eu me senti toda bonita. Pelos meus pensamentos, pelas minhas idéias e por ter extraído dele essa frase...
Numa prova eu pretensiosamente finalizei minha dissertação com uma citação de Guimarães Rosa “Minha porta é para o nascente”. Ele subliminhou e escreveu em vermelho “bonito”. Eu me senti toda bonita. Pelos meus pensamentos, pelas minhas idéias e por ter extraído dele essa frase...
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
coisas que eu pensei da conversa de ontem
-- Catchup no lanche é uma delícia. Desde que não tire sabor do lanche.
-- Sobremesa é perigoso.
-- A gente é muito mimado. E tem medo de crescer.
-- Tá na hora de diminuir o ritmo, definitivamente.
-- Sobremesa é perigoso.
-- A gente é muito mimado. E tem medo de crescer.
-- Tá na hora de diminuir o ritmo, definitivamente.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Barthes
“ Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de se-lo, porque temo que meu ciume machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”.
Fernando Pessoa -- em clima natalino
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Carta de Mãe X
... você é muito mais sensata que a sua mãe maravilhosa e louquilda. Dá aquela loucura animal quando vejo um dos meus filhotes mal e aí---"Da-lhePorradas"".Muitas porradas. Nem sempre justas mas todas com muita fôrça de mãe. Eu sou assim. Você acha que eu vou melhorar????? Eu acho que não!
domingo, 16 de dezembro de 2007
sábado, 15 de dezembro de 2007
Ines Pedrosa
Tornarvas tua uma graça que era minha, e essa anedota voltava para mim, aumentada, alvitada pelos pontos de humor que tinhas ganho entretanto no coração de alguém, à minha custa.
Eu rezo-te para que me deixer amar ouro com a ternura desempregada que ficou de ti. Para nada. Porque era para nada que eu te queria – para ficar sentado no diamante bruto da tua alma, e descobrir nesse miradouro as luzes residuais da minha vida.
Eu rezo-te para que me deixer amar ouro com a ternura desempregada que ficou de ti. Para nada. Porque era para nada que eu te queria – para ficar sentado no diamante bruto da tua alma, e descobrir nesse miradouro as luzes residuais da minha vida.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
né?
Pra que a gente se contentar com um pão na chapa se a gente pode ter um "pa amb tomaca", né Nata?
AMO
AMO
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Carta da Nata
1) Eu amo a sua mãe. Nem Freud, nem Saramago, nem Dr. Eva, nem Rosely Sayão, nem Coetzee. D. Ana deveria ganhar o Nobel da Sabedoria em todos os sentidos. Uma nova categoria a ser inventada e que sua mãe ganharia de lavada desses abestados e burros.
2) Eu amei falar com vc ontem. Marilinha faz muita falta na minha vida.
3) Instalei o Widget do Estadão no meu computador, assim a gente fica mais pertinho!
4) Mázi, vc participa da produção do país, é verdade! Que orgulho da minha pequena!
5) Descobri que preciso de um novo nome, Nataly, e além do mais com la i griega, me faz pensar que é nome de gente indecisa. Tô fazendo um bolão, se tiver alguma sugestão me avisa. E tbm preciso de um sobrenome.
6) Amo a sua mamis de novo, achar que a vida é uma canção do Tom Jobim, é ótemao. Mãe e filha são cronistas natas. E eu as amo muuuiito!beijocas da Nata
2) Eu amei falar com vc ontem. Marilinha faz muita falta na minha vida.
3) Instalei o Widget do Estadão no meu computador, assim a gente fica mais pertinho!
4) Mázi, vc participa da produção do país, é verdade! Que orgulho da minha pequena!
5) Descobri que preciso de um novo nome, Nataly, e além do mais com la i griega, me faz pensar que é nome de gente indecisa. Tô fazendo um bolão, se tiver alguma sugestão me avisa. E tbm preciso de um sobrenome.
6) Amo a sua mamis de novo, achar que a vida é uma canção do Tom Jobim, é ótemao. Mãe e filha são cronistas natas. E eu as amo muuuiito!beijocas da Nata
Carta de Mãe IX
Ele é um nenê Marilia e, provavelmente, vai crescer quando todos os amigos já estiverem velhinhos.
Você, ao contrário ,é madura, já participa da produção do país, mora sozinha, sabe controlar seu dinheiro e é dona do seu lindo narizinho!!!!! O Decinho, meu amigo do povão, nunca cresceu. Até hoje é um nenezão, gastou toda a fortuna do pai e passava dias a fio ouvindo jazz e achando que a vida é uma canção do Jobim.Tem gente assim.Não são maus---são mimados e incapazes de saírem de si.
É uma pena porque o tempo passa e eles ficam.É problema deles mesmo. Um beijo da MOOOOOOMY
Você, ao contrário ,é madura, já participa da produção do país, mora sozinha, sabe controlar seu dinheiro e é dona do seu lindo narizinho!!!!! O Decinho, meu amigo do povão, nunca cresceu. Até hoje é um nenezão, gastou toda a fortuna do pai e passava dias a fio ouvindo jazz e achando que a vida é uma canção do Jobim.Tem gente assim.Não são maus---são mimados e incapazes de saírem de si.
É uma pena porque o tempo passa e eles ficam.É problema deles mesmo. Um beijo da MOOOOOOMY
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Grande sertão -- respiro.
" Não estou contando? Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu -- como é que eu posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele ate o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim".
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Coisas que eu pensei da análise de hoje
-- Ter leveza não significa desencanar das coisas --- siginifca escolher corresponder ou não às expectativas dos outros.
-- Vaidade é uma das piores coisas que um jornalista pode cultivar.
-- É muito importante tomar as rédeas.
-- Tomar uma decisão agressiva, não me faz, AT ALL, uma pessoa agressiva.
-- Ups! Acontece. Sorry baby, but i will never forgive you.
-- hehehe ( nada não -- segredo).
-- Vaidade é uma das piores coisas que um jornalista pode cultivar.
-- É muito importante tomar as rédeas.
-- Tomar uma decisão agressiva, não me faz, AT ALL, uma pessoa agressiva.
-- Ups! Acontece. Sorry baby, but i will never forgive you.
-- hehehe ( nada não -- segredo).
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Carta de Mãe VIII
Ma-menor,
Já passei(e ainda passo as vezes)por períodos idênticos. Como dizia a sábia vovó:-Isso passa! - A gente não nasce sabendo ser feliz e sabendo sofrer. A gente aprende tudo e nosso mestre é oTempo. Isso não significa que a gente fique paralizada. Temos que dar"start", né? A Europa sempre será um sonho mas ele virou realidade prá voce e foi bonito. Nosso"espinho" não é geográfico. Prá onde a gente for ele vai com a gente. Essa alternância de dor e alegria é que é o viver.Você é uma pessoa maravilhosa e eu tenho certeza disso. Dentro da ostra tem uma pérola. Filhinha eu te desejo, de coração, toda a felicidade do mundo. Procure-a, lute por ela, dê a mão prá voce mesma e pé na vida.
Beijo e benção especial da MAAAAAmis
Já passei(e ainda passo as vezes)por períodos idênticos. Como dizia a sábia vovó:-Isso passa! - A gente não nasce sabendo ser feliz e sabendo sofrer. A gente aprende tudo e nosso mestre é oTempo. Isso não significa que a gente fique paralizada. Temos que dar"start", né? A Europa sempre será um sonho mas ele virou realidade prá voce e foi bonito. Nosso"espinho" não é geográfico. Prá onde a gente for ele vai com a gente. Essa alternância de dor e alegria é que é o viver.Você é uma pessoa maravilhosa e eu tenho certeza disso. Dentro da ostra tem uma pérola. Filhinha eu te desejo, de coração, toda a felicidade do mundo. Procure-a, lute por ela, dê a mão prá voce mesma e pé na vida.
Beijo e benção especial da MAAAAAmis
Para cor da borboleta que clama por atencióóón
"... Talvez a mais profunda melancolia do viajante esteja no fato de que a alegria da volta mistura-se sempre alguma coisa mais dificil de se descrever, a ideia de que o que lhe fez tanta falta conseguiu continuar vivendo sem ele, e de que para possui-lo de verdade ele deveria permanecer pra sempre onde esta aquilo que lhe faz falta. Mas, com isso, ele passaria a ser alguem que nao pode ser, aquele que fica sempre em casa. O verdadeiro viajente vive da sua dor, da tensao entre a alegria de reencontrar e a tristeza de deixar novamente; e, ao memo tempo, essa dor eh a propria essencia de sua existencia, ele nao se sente em casa em nenhum lugar. Onde quer que esteja, percorrendo o mundo, ele sofrera sempre de uma carencia, porque eh o ETERNO PEREGRINO ..."
Relendo Diário de viagem

“...Já consigo distinguir certas nuances do nada, todos aqueles barulhos quase inexistentes, o zunir longínquo dos insetos, a lenta batida de asas de um casal de pombos, o vento nos àlamos, os quais todos juntos, formam o silêncio” Cees Nooteboon
Lê mouffe
Meu pai já estava insistindo há algum tempo para conhecermos a Rue de Mouffetard. É lá o mercado das manhãs dominicais. Mas com o frio, é sempre difícil vencer a preguiça e sair logo cedo. Hoje conseguimos. A coisa mais linda! E típica. Todas as Fromageries com seus 184 tipos de queijos a mostra. As boulangeries exalando o pecaminoso odor das baguettes. Filas que davam a volta no quarteirão. E os franceses ali, com seus carrinhos, escolhendo cuidadosamente, os ingredientes pra o almoço de domingo. Movimento, barulho e agitação. E de repente... Vazio. Um silencio ensurdecedor dominou a rua. Subimos até as arenas de Lutece. E mais silencio. Lembrei então que hoje é domingo e que é hora do almoço. Cada um em casa com a sua família. A rua que borda as arenas de Lutèce é cheia de apartamentos lindinhos.
***
Na rua não há viva alma.
***
Lê mouffe
Meu pai já estava insistindo há algum tempo para conhecermos a Rue de Mouffetard. É lá o mercado das manhãs dominicais. Mas com o frio, é sempre difícil vencer a preguiça e sair logo cedo. Hoje conseguimos. A coisa mais linda! E típica. Todas as Fromageries com seus 184 tipos de queijos a mostra. As boulangeries exalando o pecaminoso odor das baguettes. Filas que davam a volta no quarteirão. E os franceses ali, com seus carrinhos, escolhendo cuidadosamente, os ingredientes pra o almoço de domingo. Movimento, barulho e agitação. E de repente... Vazio. Um silencio ensurdecedor dominou a rua. Subimos até as arenas de Lutece. E mais silencio. Lembrei então que hoje é domingo e que é hora do almoço. Cada um em casa com a sua família. A rua que borda as arenas de Lutèce é cheia de apartamentos lindinhos.
***
Na rua não há viva alma.
***
Maga Mestra
" Eu não passo de uma vírgula na vida. Eu que sou dois pontos. Tu és minha exclamação. "
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
BRIGA DO DIA
Querido,
Fiquei pensando ontem a noite em toda a nossa conversa. Acho que eu não tinha que ter tocado naquela assunto com vc. Ok, tropeços. Acontecem. A gente que vai se conhecendo devagar, aprende -- devagar também -- em que pedrinhas não devemos pisar. Ainda mais porque é muito dificil adivinhar as coisas né? Então eu não sei exatamente o que pode te ofender o te machucar. Mas a gente aprende, não é verdade?
Por isso também eu te mostro as minhas pedrinhas que vc não deve pisar, pra -- repito-- não haver mais tropeços. Eu não gosto de punição e tampouco quando vc não é delicado comigo. Se vc ficar chateado comigo é melhor que me peça pra ficar longe -- eu respeito. Do contrário, querido, não me agrida. Não é drama, não é auê. Não sou uma pessoa de "auês" quando diz respeito aos meus afetos. Aliás, me agride vc falar isso. Eu sou séria. Não sou passinal, eufórica e nem voraz, e portanto, não fico reclamando da vida e chorando pelos cantos. Quando eu tenho uma preocupação ela é minha e legítima. Talvez não seja pra vc, mas é pra mim.
Enfim, sem mais delongas, acho que a gente para de tropeçar quando a gente aprende onde pisar. Isso vale pra mim e pra vc.Te digo uma coisa: não fico colocando o dedo nas suas feridas, nem apontando seus defeitos -- quem tem teto de vidro, amore, não faz isso. Desculpa se te ofendi.
Beijos
Mazi
Fiquei pensando ontem a noite em toda a nossa conversa. Acho que eu não tinha que ter tocado naquela assunto com vc. Ok, tropeços. Acontecem. A gente que vai se conhecendo devagar, aprende -- devagar também -- em que pedrinhas não devemos pisar. Ainda mais porque é muito dificil adivinhar as coisas né? Então eu não sei exatamente o que pode te ofender o te machucar. Mas a gente aprende, não é verdade?
Por isso também eu te mostro as minhas pedrinhas que vc não deve pisar, pra -- repito-- não haver mais tropeços. Eu não gosto de punição e tampouco quando vc não é delicado comigo. Se vc ficar chateado comigo é melhor que me peça pra ficar longe -- eu respeito. Do contrário, querido, não me agrida. Não é drama, não é auê. Não sou uma pessoa de "auês" quando diz respeito aos meus afetos. Aliás, me agride vc falar isso. Eu sou séria. Não sou passinal, eufórica e nem voraz, e portanto, não fico reclamando da vida e chorando pelos cantos. Quando eu tenho uma preocupação ela é minha e legítima. Talvez não seja pra vc, mas é pra mim.
Enfim, sem mais delongas, acho que a gente para de tropeçar quando a gente aprende onde pisar. Isso vale pra mim e pra vc.Te digo uma coisa: não fico colocando o dedo nas suas feridas, nem apontando seus defeitos -- quem tem teto de vidro, amore, não faz isso. Desculpa se te ofendi.
Beijos
Mazi
Querida Nataloka,
Ontem fui entrevistar o Amyr Klink.
O Escritório dele é tudo que a gente imagina. Pedaços de barco, coisas que ele mesmo faz. Acredita que eu cheguei e ele estava regando o jardim? Aí ele me disse assim: "Ué, e a Nataly, não vem? Cadê ela?" E eu: "Ih Amyr, nem me fale... to com tanta saudade dela. Mas vc sabe como é né... ela é sagitariana e tem essa coisa de viajante, um dia quando vc vê : beijotchau, foi embora". Depois da cara de decepção dele, me serviu um café e me disse uma coisa importantíssima. Que detesta espírito aventureiro, porque o termo aventura remete a alguém que vai e que não volta mais. E o melhor de ir, segundo ele, é saber que pode voltar sempre. Eu adorei isso. Achei lindo e verdadeiro. Aí ele me contou que a próxima viagem dele pra Antártida, ele faz questão da nossa presença: " a gente captura a Nataly ali em mallorca e leva ela com a gente". Achei uma idéia magnífica, que tal?
A entrevista correu bem. Só fiquei imaginando nós duas com nosso super senso de "precisão, cálculo e coordenação" :) tentando manejar aquele barco entre as geleiras...
Querida,
beijo no seu coração.
Mazi
O Escritório dele é tudo que a gente imagina. Pedaços de barco, coisas que ele mesmo faz. Acredita que eu cheguei e ele estava regando o jardim? Aí ele me disse assim: "Ué, e a Nataly, não vem? Cadê ela?" E eu: "Ih Amyr, nem me fale... to com tanta saudade dela. Mas vc sabe como é né... ela é sagitariana e tem essa coisa de viajante, um dia quando vc vê : beijotchau, foi embora". Depois da cara de decepção dele, me serviu um café e me disse uma coisa importantíssima. Que detesta espírito aventureiro, porque o termo aventura remete a alguém que vai e que não volta mais. E o melhor de ir, segundo ele, é saber que pode voltar sempre. Eu adorei isso. Achei lindo e verdadeiro. Aí ele me contou que a próxima viagem dele pra Antártida, ele faz questão da nossa presença: " a gente captura a Nataly ali em mallorca e leva ela com a gente". Achei uma idéia magnífica, que tal?
A entrevista correu bem. Só fiquei imaginando nós duas com nosso super senso de "precisão, cálculo e coordenação" :) tentando manejar aquele barco entre as geleiras...
Querida,
beijo no seu coração.
Mazi
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Ah priiima porque a gente é assim mesmo...
A gente é bagunçada, atrapalhada, confusa...
Perde os prazos do TCC, briga, machuca, nunca aprende a dizer NÃO, se relaciona com as pessoas mais malucas.
Mas não nos cansamos te tentar conquistar algo: neles, na gente mesma, no mundo inteiro-- se for possível ( isso é síndrome de quem estudou lá no SC, vc sabe né?).
Agora que tá chegando o final do ano, vale a pena pensar nessas bobagens mesmo. Fazer um banho cheio de ervas cheirosas, deitar a cabeça no travesseiro e saber que vai sonhar a noite inteirinha e pensar quem a gente vai levar pra frente.
Tu tá comigo Re. Nós, a joaninha e toda sorte que 2008 guarda pra gente.
no madness, no crazy things. JUST GETTING HIGHT WITH A LITTLE HELP FROM OUR FRIENDS.
Amigo secreto?
Prima, beijo no cuore, da CRÔ.
Perde os prazos do TCC, briga, machuca, nunca aprende a dizer NÃO, se relaciona com as pessoas mais malucas.
Mas não nos cansamos te tentar conquistar algo: neles, na gente mesma, no mundo inteiro-- se for possível ( isso é síndrome de quem estudou lá no SC, vc sabe né?).
Agora que tá chegando o final do ano, vale a pena pensar nessas bobagens mesmo. Fazer um banho cheio de ervas cheirosas, deitar a cabeça no travesseiro e saber que vai sonhar a noite inteirinha e pensar quem a gente vai levar pra frente.
Tu tá comigo Re. Nós, a joaninha e toda sorte que 2008 guarda pra gente.
no madness, no crazy things. JUST GETTING HIGHT WITH A LITTLE HELP FROM OUR FRIENDS.
Amigo secreto?
Prima, beijo no cuore, da CRÔ.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
...
então, aí liguei hoje né? Fazer o quê. Só pra sentir que tá tudo bem. Odeio ficar brigada, sabe? Alías, sou péssima de briga. Não suporto barraco, climão e tal. E aí ele foi doce, agiu como se nada tivesse acontecido, como se a gente não tivesse se espetado horrores ontem. Ele foi terno. A pergunta é, quanto tempo dura essa ternura antes que venha outro rompante?
E quando é que a gente aprende que LANCHE é LANCHE e que não vale a pena misturar as bolas?
:)
E quando é que a gente aprende que LANCHE é LANCHE e que não vale a pena misturar as bolas?
:)
Rubem Braga

"...Meu bom humor fê-la sorrir. Na hora de sair disse que ia me dizer uma coisa, depois resolveu não dizer. Não insisti. E não a vi mais. Com certeza não a verei mais, e não ficaremos os dois nem decepcionados nem sentimentais, apenas com uma vaga e suave lembrança que um dia se perderá. Pego as pequenas luvas pretas. Têm um ar abandonado e infeliz, como toda luva esquecida pelas mãos..."
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
TCC - parte III
Coquetel
Releitura de “Pequenas Epifanias” de Caio Fernando de Abreu
O Cauê é um doce. Não conseguiu dizer que eu estava bonita então disse assim: “Você está tão bem né? Você soltou o cabelo?”. Sorri. Tem aquele tipo de leveza que é invejável. Coração bom, do tipo que é solidário.Segurou minha bolsa e colocou a mão na minha coxa. Partiu um pedaço de carne, colocou no meu prato e regou com limão “assim fica mais gostoso”. Alimentou-me. Minha alma saiu de lá satisfeita. Olhou pra mim e disse: “Você está um pouquinho bêbada, vou te levar em casa”. Não precisa, mas trouxe. Falou de Chico Buarque como se fosse mulher. Comentou que tem azar no jogo “mas sorte no amor” com um sorrisinho sutil e maroto. Desses que não promete nada, mas já vem embutido o mundo embrulhado em ouro. É queridíssimo pelos amigos, pagou a conta e deu carona pra todos. Cauê quer ter filhos logo “uns 5, se eu pudesse, teria já”. Quando o irmão mais novo pede champagne porque “está com sede”, Cauê dá um tapinha e fala “pega uma coca”, mas acaba dando um golinho.
Ele me deixou com um sorriso genuíno no rosto o dia seguinte inteiro. Quando eram 11 horas me ligou pra saber como eu tinha ido pro trabalho, “fiquei preocupado”. E um silêncio grande tomou conta da linha telefônica. Não conseguia falar nada. É que dentro de mim tinha apenas uma brisa que não podia ser verbalizada. Porque é muito interna, íntima e profunda. Tranquei minhas palavras.
Durante a tarde lembrei de um texto do Caio Fernando de Abreu que fala em pequenas epifanias : “Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada a minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania.”
Eu vivi uma pequena epifania porque enxerguei um presente em todo aquele sentimento. Depois veio o súbito medo de perder, de esquecer todos os sentidos que foram colocados a postos naquela noite. E tudo que estava suspirando dentro de mim na manhã do dia seguinte. O medo de simplesmente esse momento, fazer parte da coleção de coisas que foram e que não deixaram nenhuma marca. Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver. Já ele, o Cauê não. Ele é concentrado na felicidade. Tem um sorriso espiral e olhos solares.
E tudo isso nascido de uma noite de coquetel de trabalho...
Releitura de “Pequenas Epifanias” de Caio Fernando de Abreu
O Cauê é um doce. Não conseguiu dizer que eu estava bonita então disse assim: “Você está tão bem né? Você soltou o cabelo?”. Sorri. Tem aquele tipo de leveza que é invejável. Coração bom, do tipo que é solidário.Segurou minha bolsa e colocou a mão na minha coxa. Partiu um pedaço de carne, colocou no meu prato e regou com limão “assim fica mais gostoso”. Alimentou-me. Minha alma saiu de lá satisfeita. Olhou pra mim e disse: “Você está um pouquinho bêbada, vou te levar em casa”. Não precisa, mas trouxe. Falou de Chico Buarque como se fosse mulher. Comentou que tem azar no jogo “mas sorte no amor” com um sorrisinho sutil e maroto. Desses que não promete nada, mas já vem embutido o mundo embrulhado em ouro. É queridíssimo pelos amigos, pagou a conta e deu carona pra todos. Cauê quer ter filhos logo “uns 5, se eu pudesse, teria já”. Quando o irmão mais novo pede champagne porque “está com sede”, Cauê dá um tapinha e fala “pega uma coca”, mas acaba dando um golinho.
Ele me deixou com um sorriso genuíno no rosto o dia seguinte inteiro. Quando eram 11 horas me ligou pra saber como eu tinha ido pro trabalho, “fiquei preocupado”. E um silêncio grande tomou conta da linha telefônica. Não conseguia falar nada. É que dentro de mim tinha apenas uma brisa que não podia ser verbalizada. Porque é muito interna, íntima e profunda. Tranquei minhas palavras.
Durante a tarde lembrei de um texto do Caio Fernando de Abreu que fala em pequenas epifanias : “Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada a minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania.”
Eu vivi uma pequena epifania porque enxerguei um presente em todo aquele sentimento. Depois veio o súbito medo de perder, de esquecer todos os sentidos que foram colocados a postos naquela noite. E tudo que estava suspirando dentro de mim na manhã do dia seguinte. O medo de simplesmente esse momento, fazer parte da coleção de coisas que foram e que não deixaram nenhuma marca. Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver. Já ele, o Cauê não. Ele é concentrado na felicidade. Tem um sorriso espiral e olhos solares.
E tudo isso nascido de uma noite de coquetel de trabalho...
coisas que eu pensei da conversa de ontem
-- o bom analista é aquele que trata a paixão.
-- comportamento obsessivo independe do objeto.
-- nem todo mundo sente as coisas da mesma maneira que a gente.
-- acho que eu to com bode dele.
-- o mais velho é a pessoa mais especial que eu já conheci na minha vida.
-- saudades da Nilds.
hum... acho que é só.
-- comportamento obsessivo independe do objeto.
-- nem todo mundo sente as coisas da mesma maneira que a gente.
-- acho que eu to com bode dele.
-- o mais velho é a pessoa mais especial que eu já conheci na minha vida.
-- saudades da Nilds.
hum... acho que é só.
Ok. Comprovado! O Contardo tá no patamar do Chico.
CONTARDO CALLIGARIS
Ilhas desconhecidas
O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então
... De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual. De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens. Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver". Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas. Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa. Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga. Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes. O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós. Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem. Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.
ccalligari@uol.com.br
Ilhas desconhecidas
O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então
... De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual. De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens. Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver". Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas. Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa. Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga. Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes. O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós. Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem. Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.
ccalligari@uol.com.br
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Barthes -- second time of the day -- a foto é contribuição da Maricota
Hilda Hilst
Teus passos somem
Onde começam as armadilhas
Curvo-me sobre a terra que me espia
Ninguém ali. Nem humano, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?
De escuro e terra tua moradia?
Pegadas finas
feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.
Então me deito sobre rodeiras
Hei de saber o amor à tua maneira.
Me queimo em sonhos, tocando estrelas.
Barthes
Pronto, eis aí o outro anulado sob o amor: dessa anulação tiro um proveito verdadeiro: quando uma ferida acidental me ameaça ( uma idéia de ciúme, por exemplo), eu a recupero na magnificência e na abstração do sentimento apaixonado; deixo de desejar aquilo que, estando ausente, não pode mais me ferir. Entretanto, imediatamente, sofro ao ver o outro ( que amo) assim diminuído, reduzido e como excluído do sentimento que ele suscitou. Me sinto culpado e me reprovo de abandoná-lo . Uma reviravolta se opera: procuro desanulá-la, me obrigo a sofrer novamente.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
BORGES -- gracias Tamasa
A despecho de tu desamor
tu hermosura
prodiga su milagro por el tiempo.
Está en ti la ventura
como la primavera el la hoja nueva.
Ya casi no soy nadie, soy tan sólo
ese anhelo
que se pierde en la tarde.
En ti está la delicia
como está la crueldad en las espadas.
tu hermosura
prodiga su milagro por el tiempo.
Está en ti la ventura
como la primavera el la hoja nueva.
Ya casi no soy nadie, soy tan sólo
ese anhelo
que se pierde en la tarde.
En ti está la delicia
como está la crueldad en las espadas.
Bebeliiita Hey!
A minha querida Bebel, mais conhecida como " Kill Bell", agora é faixa amarela no Kong Fu.
Toda linda e formosa. Unhas vermelhas e faixa de Oxum amarrada na cintura. Ritual mas sem nunca perder o charme. Uma coisa muito séria. Se ele me encher muito o saco, ela dá um safanão nele, né Bebs?
:)
Toda linda e formosa. Unhas vermelhas e faixa de Oxum amarrada na cintura. Ritual mas sem nunca perder o charme. Uma coisa muito séria. Se ele me encher muito o saco, ela dá um safanão nele, né Bebs?
:)
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Como manter a calma quando se descobre que o TCC está errado 3 dias antes da Banca
Ok fellows.
Se der caca... temos aqui um manual.
1- Chore -- desabafar faz bem.
2- Ligue pra melhor amiga -- ou espere ela te ligar, mas desabafar é essencial. Xingue, chute o lixo, fale mal do mundo...
3- Faça aqueeeeeela chantagem emocional com o seu orientador -- Ó céus, ó vida e u é?
4- Aí sim, mantenha a calma. Ninguém é mais criança né gente? Ok, deu errado bora solucionar.
5 - Se conforme -- você vai TER que refazer TUDINHO em cinco dias -- um tempo surreal. That´s what life is about ... SE VIRA NOS TRINTA, amor.
6- Depois do estress, trabalho resolvido, amigos de saco cheio da suas reclamações, professores querendo matar vc e querendo matar todo mundo -- chore mais um pouco -- esse choro é FANTÁSTICO!
7- Te pongas guapa e vamos a lá banca -- com classe, graça e sorriso -- como se NADA tivesse acontecido.
8- Seja feliz porque ACABOU!
Nilds, vc é um anjo.
Besoote.
Se der caca... temos aqui um manual.
1- Chore -- desabafar faz bem.
2- Ligue pra melhor amiga -- ou espere ela te ligar, mas desabafar é essencial. Xingue, chute o lixo, fale mal do mundo...
3- Faça aqueeeeeela chantagem emocional com o seu orientador -- Ó céus, ó vida e u é?
4- Aí sim, mantenha a calma. Ninguém é mais criança né gente? Ok, deu errado bora solucionar.
5 - Se conforme -- você vai TER que refazer TUDINHO em cinco dias -- um tempo surreal. That´s what life is about ... SE VIRA NOS TRINTA, amor.
6- Depois do estress, trabalho resolvido, amigos de saco cheio da suas reclamações, professores querendo matar vc e querendo matar todo mundo -- chore mais um pouco -- esse choro é FANTÁSTICO!
7- Te pongas guapa e vamos a lá banca -- com classe, graça e sorriso -- como se NADA tivesse acontecido.
8- Seja feliz porque ACABOU!
Nilds, vc é um anjo.
Besoote.
Grande sertão -- afinando, please.
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais. Ainda não foram terminadas – mas que elas estão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. A vida me ensinou. Isso me alegra, montão".
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Um pedacinho do livro de cabeceira pra minha querida que vai viajar...

"... O encanto de um local estrangeiro deriva da simples idéia de novidade e mudança: de encontrar camelos onde na terra natal havia cavalos; de encontrar edifícios sem enfeites onda na terra natal havia colunas. Pode haver, porém um prazer mais profundo: nós podemos valorizar elementos estrangeiros não só porque são novos, mas porque parecem se harmonizar com nossa identidade e com nossos envolvimentos de modo mais fiel do que qualquer outra coisa que nossa terra natal pode oferecer".
Carta de mãe VII
Queridos filhos é bom que saibam que estou gostando muito de ter 64 anos. Criei vocês, levei prá lá e prá cá, aprenderam a nadar, estudaram inglês, foram para acampamentos, viajaram para a Disney, voces são maravilhosos, amorosos, bonitos, enfim agora posso viajar sem me preocupar com quem vai tomar “conta” de vocês, ler livros apenas por prazer, conversar com os amigos queridos , jantar fora só com o papai e ainda, como lucro, vejo vocês sempre e vocês estão sempre como sonhei-- felizes, olhando para os outros, generosos, e mais não posso dizer com medo de inveja. Cruz Credo!!! Inveja mata. Muitos abraços e beijos da mamãe (que ,hoje teve um acesso de saudade e afeto).
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
É mole ?
Ontem ele me disse que eu tenho "muitas faces". "Só duas -- e porque eu sou geminiana" respondi eu. Ele retrucou: "Que nada! Umas cinco". Ah... que petulantezinho esse menino!! Então eu disse: "Imagina, meu bem -- VC QUE NÃO ME ENTENDE MESMO" :) e fui embora feliz. Eu e as minhas 5 faces satisfeitésimas.
ENCADENADAS II - carta da Nata
Má,
Vc descobriu minha querida. Vc é presidiária da ternura, atada aos pequenos amores da armadilha terrestre! Isso dói ás vezes né ? É um privilégio para poucos. Mas acho que são outras "cadenas del alma" que te fazem sentir presa. Sei bem como é isso. Niglicenciar a nossa felicidade em nome dessas pessoas- cadenas. Como bem lembrou a sábia Ana, a gente tem o direito e o dever de ser feliz. Mas aí está o paradoxo: nossa felicidade também está intimamente ligada a essas cadenas que nos faem mal não é mesmo ? E como resolver uma loucura dessas ? Como a gente adquire essa sensatez de que sua mãe fala ? E se só soubermos ser felizes assim, do tipo "encadenadas" ? Isso me preocupa. Esse texto (lindo) do Paulo Mendes Campos não poderia aparecer em melhor hora.
Beijos
Vc descobriu minha querida. Vc é presidiária da ternura, atada aos pequenos amores da armadilha terrestre! Isso dói ás vezes né ? É um privilégio para poucos. Mas acho que são outras "cadenas del alma" que te fazem sentir presa. Sei bem como é isso. Niglicenciar a nossa felicidade em nome dessas pessoas- cadenas. Como bem lembrou a sábia Ana, a gente tem o direito e o dever de ser feliz. Mas aí está o paradoxo: nossa felicidade também está intimamente ligada a essas cadenas que nos faem mal não é mesmo ? E como resolver uma loucura dessas ? Como a gente adquire essa sensatez de que sua mãe fala ? E se só soubermos ser felizes assim, do tipo "encadenadas" ? Isso me preocupa. Esse texto (lindo) do Paulo Mendes Campos não poderia aparecer em melhor hora.
Beijos
ENCADANADAS I -- na visão de Paulo Mendes Campos
...quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
POETINHA ...
O RIO
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca da luz.
Um rio nasceu
Vinicius
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