segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

MIJU


Meio judia – Meio mineira

Quando pequena, na escola, tive que preencher um formulário sobre a religião dos meus pais. No campo “pai” escrevi “judeu”. No campo “mãe” escrevi “mineira”. O caso é motivo de piada na minha casa até hoje. Posteriormente fui compreender que ser mineiro é quase uma religião mesmo, e que judeu é uma identidade cultural, independente do local de origem. O fato é que ter uma mãe mineira e um pai judeu é uma combinação rica e ao mesmo tempo bem esquisita. Por exemplo, na minha casa temos todas as festividades, natal, paissach, sexta-feira da paixão, rosh-hashaná e assim por diante. Minha mãe, vive dizendo provérbios que aprendeu em Minas. Meu pai, expressões em ídische.
No ano novo judaico, minha tia Léa, costuma dizer que ser judeu é uma escolha. Cheia de graça, ela prepara na cozinha o peixe típico, tudo com bastante raiz forte “para lembrar o tempo da escravidão do povo judeu”. Depois molha-se a maçã no mel para que o ano que chega, seja doce. Na hora do brinde a família toda diz “Shana- tová”. Feliz ano novo. Já Minas é recato, é renda nas janelas, barulho dos paços na procissão de Corpus Chisti e cheiro do pão de queijo recém saído do forno. Quando andamos na rua, as pessoas perguntam cheias de curiosidade: “fiin, ce é fi de quem”. Minha avó Arlete costumava deixar um chá de cidreira, colhido na horta, junto com uma rosquinha, na cozinha. Os netos no café da manhã, conversavam a beira do forgão a lenha, pra se aquecer do frio das montanhas mantiqueiras. Os doces, na mesa. De abóbora, de figo, de batata doce. Todos sempre discretos. As netas precisam ser “moças de família”.
Conviver com as duas culturas me dispertou uma grande curiosidade e conversando com outras pessoas que também são filhos de casais mistos, pude notar algumas características em comum dessa identidade curiosa “meio judia –meio mineira”.
Ser meio judia- meio mineira é “passar duas vezes a chave na porta”. É rezar o pai-nosso e sempre ser um pouco desconfiado. É se comover com os filmes do holocausto e chorar assistindo “O violinista no telhado”. Ser meio judia-meio mineira é falar pouco e ouvir, muito. É dançar “Hava Nagila” e achar que casamento judeu é a mais linda das cerimônias. É adorar queijo branco e guefilte fish. É aprender com uma avó a fazer biscoitos, ouvindo ela contar as histórias de interior e com a outra, a fazer varenique escutando-a cantalorar músicas em ídiche. Ser meio-judia, meio-mineira é se sentir mineira quando lê o “Grande sertão : Veredas” e judia quando vê um quadro do Chagall.

Mas ambos, judeus e mineiros, mantêm um ar de nostalgia, têm um ditado na ponta da língua e muito afeto. Têm fé e sentem despertar um tempo de amanhecer da vida. Ser meio judia- meio mineira é misturar as origens e tirar a poesia que existe em cada uma delas, é exatamente isso: acreditar num tempo de amanhecer da vida. “Shalon” e “benção”.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Formatura

Sapato de salto na mão.
Pés no chão ou no ar.
Chuva de prata.
E eu... parapapapá ... gostava tanto de você.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Pérolas de um carnaval no RJ


"A paulixtada não é poca merrrrrda náaaao"
"Não é banheiro, é privacidade" -- Pedreiro na porta da obra que abrigou meninas desesperadamente apertadas.
"Cara, vc tá boladona? Quem cruza ox braçux não agrada papai do céu não"
" PORRA! Olha esse visual " "Bonito né?" " PORRA! Bonito sou eu, PORRA".
" me larrrga PORRA"
"Tchiamu cara"
" Ataulfo de paiva? conheço não"
"que comê o quê... o bloco tá bombándo aqui"

Faltou alguma hermanita?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Caminhão de mudança -- parte II

Esquecer para sempre.
Noites de ciúme. O choro de saudade na mesa do Almanara quando ele foi embora. Todos os telefonemas falsos. Echar al viento las corrientes del mal. Aquilo que impede de ver, madrugadas de insônia, falta de grana, carro quebrado. Maquiagem borrada no fim de festa ruim. Ressaca de bebida e de coração. Esquecer aquilo que se fala demais. Esquecer o guardar para si por medo e falta de coragem. Deixar para tras grandes pesadelos de pequenos cochilos. Minutos que parecem horas, horas que parecem dias. Esquecer a bronca dele, a conversa de demissão. O dia em que ela chegou de novo bufando na mesa. A tensão de não ter pra dar, de que não ter tempo suficiente. O medo da frustração, cada máscara ruim. A sensação de saber que ele estava mentindo e ainda assim não conseguir reagir. Horas na fila da PUC, conversas difíceis com pais, todos os telemarketings, a falta de guarda-chuva bem no meio de uma tempestade. Jogar fora os papéis que prendem a uma história que não diz mais nada, fechar a conta do banco que não se usa mais. Esquecer o sentimento de impotência, de falta de escolha. Todos nós da madeira, a música que não tocou, o convite que não foi aceito. Uma ligação errada numa madrugada errada. Esquecer o 'não" grosseiro, a ofensa gratuita no trânsito, manhãs corridas, provas sem nenhuma preparação. Esquecer o olhar de repreensão e o sentimento de inferioridade. Ele saindo com a austeridade de quem não passou uma noite junto. Esquecer as traições, todas. Feitas e recebidas. Esquecer ela inventando histórias mirabolantes pra dizer que não. Esquecer do aniversário ruim, dia mais frio do ano, todos os erros irreparáveis. Esquecer o que não volta, o que está fechado e não tem mais jeito. Esquecer as contas atrasadas, uma chave largada num canto do mundo. Memórias de uma menina má. Inconviniências, mal humor e todas as TPMs. Esquecer quem foi e não deixou nada de bom. E preparar... porque agora vai.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Rubem Braga

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própia natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de naufrágo fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisa e sentimentos de todo dfia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. (...)
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de casa sensação nova um prazer pessoal do qual não devemos dar contas a ninguém. Sentimonos fortes, sólidos e tranqüilos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Carta da Nanas -- desencadenando siempre


Nilds, esse é ele, e o meu tbm, e é por isso que a gente ama e odeia eles. A gente ama porque eles têm um jeito de dobrar a nossa dureza e retidão com delicadeza e sentimento. Sempre que a gente está pronta pra dizer que "agora chega", "porque isso passou de todos os limites" eles vêm com esse jeitinho pra amolecer o coração.
A gente só não pode deixar que eles sapateiem, porque quem tem o poder tem a tendência inevitável de abusar dele.
Quanto ao teu sentimento, deixe ele gritar. Vc não tem que achar ou fazer que tudo bem agora porque agora pra ele é hora de ficar bem com vc. Fique bem com ele quando esse sentimento se acalmar ou se transformar em outra coisa. mas não passe por cima dele. não por ele. Não mais uma vez.

O Ti!

beijos

Só um gostinho

De quem mora na curvinha do meu coração

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Na cadência bonita do samba

Querida Nataloka,
Semana passada fui entrevistar a Dona Inah. Lindinha!!1 metro e meio de gente, quilômetros de história. Cheguei lá, no bar do alemão e ela já estava toda pronta, echarpe, microfone e unhas vermelhas. Quando me viu, chegou bem pertinho e disse: "Ué, achei que você era loira". E eu: "Não Dona Inah... essa é a Nataly". Ela, fofa: "Ah é... mocinha simpática aquela menina né? Tão cheia de vida... " Aí eu contei pra ela que vc estava na Espanha, que estava feliz, tranquila e com uma pontinha de saudade. E ela me contou, toda-bonitinha, que tinha feito um show na Espanha, que tinha amado esse país. Bom, entramos no papo das tapas, cavas e tudo mais. No fim, ela me disse: "Porque não vamos visitá-la?". Falei que ia colocar ela dentro da minha mala e que íamos te encontrar em Alicante, que te parece, querida ? Ela me disse que se a gente passasse perrengue ( isso ela conhece), a gente pegava o pandeiro e cantava pixinguinha nas ruas: "não tem um coração que não se emociona com Pixinguinha" e eu acredito. Te vemos lá?
Loby you.
Mazi

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Suspiro do mundo

Absolutamente sem palavras
... ah vai saber né?
Dificil entrar num espaço que já foi tão seu com outras pessoas. Mas ele foi muito bem ocupado. E querido, eu fiquei muito feliz. Aos pouquinhos aquele sofá deixa de ser seu. E passa a ser meu. Meu e de quem eu quiser convidar. Te convidei pra um samba e vc não veio. Emoção: ato de mover-se . E o sol começa a raiar... que venha o carnaval...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

... o anel que tu me deste era vidro e se quebrou...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Thats what I´m talking about: SAUDADE

Minhas duas flores de raposa estão longe. Em BCN. Minhas duas flores de raposa estão juntitas no campo mais encantado, hablando la lengua más dulce y aposto, rindo MUITO.
Minhas linduras, estou morrendo de saudades.
Um besote grande y los mayores tamasos totales.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Just wanting...

Patinar no gelo, com aqueles gorrinhos de bolinha da cabeça. Ir pra uma fazenda tomar banho de cachoeira e comer rosquinha de doce-de-leite. Aprender francês direito. Ir até o Rio São Francisco antes da transposição. Ir pra Cuba antes da morte do Fidel. Gritar sem culpa, comer sem culpa, dormir sem culpa, chorar sem culpa, falar eugostodevoce sem culpa. No culpa at all. Tomar mojitos, comprar muitos livros de fotos. Tirar algumas, guardar alguma e rasgar algumas fotos também. Andar de bugue ou na garupa. Ir pra Pipa, comer lula frita e cantar bem alto : mar e sol, giragiragiragiragirassoooool. Colocar água para o beija-flor. Dançar loucamente durante o dia. Aprender a cozinhar. Tomar um banho de ofurô. Fazer saudade. Bailar flamenco. Um beijo na esquina e NEVER LOOK BACK.
Amo.

beijo-não-me-liga


Minha linha do Equador, é o fim da canseira.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Terceira Margem do Rio - Guimarães Rosa


Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.


A professora do cursinho falava o conto inteirinho de cor, interpretando. Ela usava um batom cor-de-rosa choque. Nunca imaginei que uma professora, que recitasse Guimarães Rosa pudesse usar um batom tão... pouco discreto. Figura inesquecível, aulas também.

Ines Pedrosa

Descobri cedo nas fotografias da minha mãe que a felicidade é uma coleção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam. Nessas fotografias aprendi a não temer o amor e a nostalgia dele, e tornei-me , sem que ela se percebesse, uma outra espécie de caçadora da luz.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Lembrei muito dele nesse final de semana. Acho que é porque tá chegando o Carnaval. Ele é um carnaval. Digno de euforia e quarta-feira de cinzas. Ressaca e ar de amor amanhecido.

carta da Mari --- café com biscoito

Pra variar fiquei pensativa ontem depois de conhecer sua casa
É gostoso ver as coisinhas lá, do jeitinho de vcs sabe. Tudo escolhidinho a dedo. Aquele espaço é o escape do universo, é o colo de mamãe. Os livros são os que vcs escolheram, colocados exatamente do jeitinho que querem que fique.
Tem lustres, velas, prateleiras e o som ambiente a gosto.
Tem fotos gostosas de um verão inesquecível.
A rede na varanda é muito gostosinha também, mas o que mexeu mais comigo foram os livros. A biblioteca na prateleira. Como é gostosa essa biblioteca! Eu também quero a minha.
São livros de meninas, são livros femininos, mas tem também os masculinos. Têm os de faculdade, ou daquele curso que não dá pra esquecer. Alguns estão grifados e com muitos post its, pra marcar frases que a gente se promete que irá cumprir e não cumpre, ou com uma frase bonita que se encaixou perfeitamente naquela fase da vida e que por coincidência, foi indicada por uma pessoa que até então a gente nem tinha tanto carinho, mas agora ama muito, por ter indicado o livro.
Tem cadernos também, né? E diários...ah, esses diários de adolescente. Eu tenho. Outro dia fui procurá-los. Tal foi minha surpresa quando resolvi contar. Mais de vinte! É como se eu tivesse escrito um diário por ano, desde que nasci. Muita coisa pra falar hein.... Tantos amores adolescentes e tantas brigas e rebeldias familiares. Lembro com carinho, porque hoje vejo como errava e como era importante errar! Pra acertar depois, é claro.
Vocês deram para a casa um toque de rosa sutil, mas que eu percebi, e gostei.
Rosa misturado com branco, e com todas as cores das alegrias trazidas da rua. Um lugar pra você chamar de seu.

Nostalgia

Ontem bateu uma. Pequena e leve. Na correria do dia-a-dia, se a gente não pára pra prestar atenção, nem percerbe. Mas bateu. Entrei naqueles corredores grandes, o cheiro ainda é o mesmo. O clima também. Acho que o que me incomodou mais foi saber que eu deixei pra trás, mesmo sem querer. Nunca quis abandonar aquela faculdade. Não foi lá que eu fiz meus amigos, tampouco onde descobri os prazeres da minha profissão. Mas lá eu aprendia, tinha sede de conhecimento. Foram 2 anos de manhãs corridas, verões e invernos. Pães de queijo deliciosos e textos incríveis. Aprendi física quântica, assisti filmes de expressionismo alemão, discuti sobre poesia concreta e aprendi a conviver com as pessoas mais diferentes de mim. Foi um dos primeiros lugares que eu aprendi a ir dirigindo, foi uma das poucas coisas que eu levei a sério por diciplina mesmo. Embora eu saiba que seria inviável levar as duas faculdades juntas, trabalhar e viver... ainda assim... doeu um pouquinho. Mas acho que tudo bem, né? A vida tem dessas coisas mesmo...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

1968 - minha homenagem.

Take another peace of my heart

Como nossos pais

All we need is love

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Rilke


Que, seria, com efeito, uma solidão (faça essa pergunta a si mesmo) que não tivesse grandeza? Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer, por mais banal que fosse; por uma aparência de acordo insignificante com quem quer que seja; com a pessoas mais indigan. Mas talvez sejam essas, justamente, as horas em que ela cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o de um menino triste como o começo das primaveras. Mas tudo isso não deve desorientar. O que se torna preciso é no entanto isto: solidão interior.

Ines Pedrosa

"Amor, amizade, o que é que isso quer dizer? São convenções, minha querida. As pessoas amam-se ou não se amam. Depois há diversas formas de exprimir esse afeto, que vão mudando ao longo dop tempo. O que acontece é que a sua familia é composta por pessoas intensas. Pessoas capazes de suportar a permanência do sentimento, com todos os seus desequilibrios internos, uma vida inteira. "

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Caminhão de Mudança

Guardar para sempre.
O sorriso indecifrável. A epígrafe da monografia. As sabotagens baratas, as cantadas falsamente vulgares. “Se quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim”. Guardar a risada da Paula, noites regadas a Santa Isabel em Paraty. Guardar palestra do Alan Pals. Os lirismos chinfrins, as lágrimas com gostinho salgado de adeus. Guardar também as latinhas de cerveja com ar amanhecido, o livro dedicado, os e-mails da mãe. Guardar pra sempre o jeito espirituoso dele, toda a delicadeza e o abraço com gosto de “fly me to the moon”. A vontade de roubar os óculos dele só pra nunca mais olhar ninguém como olha pra mim. Guardar pra sempre a nostalgia da infância, o Tango de Rashevsky, a piada de judeu, o colo de pai. Guardar Antonio Maria “No mais tudo é menor...” e todos Xangôs. E também o cheiro do girassol, flor de laranjeira e o sussurro. Guardar sobretudo aquilo que fala da sua ausência. A consciência de liberdade, os braços abertos da Nata. Guardar o quadro do Chagall em que ele finca os pés no chão e ela voa. O convite pro samba, “se você disser que me tem amor, eu posso me regenerar”, as emoções baratas. O bliss. Guardar o jeito da Nilds entrar em casa – sempre carregada de apetrechos. Também o telefonema do irmão. Guardar o pecado, o segredo, e todo proibido realizado. A mãe Oxum, os brincos, colares e sabonetes. O recado no telefone, as 40 ligações perdidas e a música do Lenine. Pra sempre. A naftalina amorosa, as caixinhas, a capacidade de lembrar, os gritos da Bebel e Guimarães Rosa: “Minha porta é para o nascente”. Os suspiros, rebolados, pés pintados de vermelho pisando na lua do teu coração. E aquela canção que ainda vai existir. Guardar o leve torpor, a intimidade conquistada em noites de delicadeza. Uma mão na cintura e a outra no fundo da alma. Guardar o exercício da paciência, o sorriso do Murillo e a ansiedade de uns. Finais de tarde no Sachinha. As oferendas, charminhos de beira de estrada e a sensibilidade apurada . Guardar para sempre o tchachachá. Textos do Contardo Calligaris, nós duas tentando trocar a água do filtro sozinhas, a bolsa de água quente e o risinho meio cortado do Pedrinho. Os dias seguintes daquelas noites, a maluquice mais doce, o delírio mais manso. O jeito de dizer "peketita" da Carol, Dave Matthews tocando no carro. Luas minguantes, "eu, você nós dois", uma mordida no umbigo. Guardar ainda Chico cantando Mambembe, o samba na casa verde. O dedilhado no violão, o jeito de fazer birra, pra sempre. Bethânia de branco e pés descalços:"Agora tenho mais memória/ Agora tenho o que foi meu". As quatro pulando ondas no Rio de Janeiro, uma garrafa de Boazinha, happy- hours no Portuga, a mestra Gabriela Leite. O entardecer na Paulista, o último chocolate da caixa, Vinícius: " O ciúme é o perfume do amor". Davi falando francês, o cheiro de pleasures, a palavra "eloqüente", aquele jogo do Brasil com pipoca e cerveja e Caetano cantando Tieta. Guardar pra sempre ele me buscando na chuva, a exposição da Tomie, a carta que eu nunca tive coragem de entregar. Os argentinos chamucheros, uma noite em Maresias e o Marquinho carinhoso. Guardar os e-mails da Nata, o olhar enciumado borbulhante dele, a trilha sonora do banho "eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho". Guardar o "loby you", o texto de Tony, as seis horas na estrada, y todos los tamasos totales. Grampinhos de cabelo, Gaufettes e o amendoim do Xingu. Guardar ainda Kiru cantalorando Maddona, a atmosfera da casa nova, o choro com som de cachoeira e o recato no ousado decote. Guardar sobretudo o patuá ,"que dá medo do medo que dá", o gosto de saudade, a vontade de recomeçar e a leveza : "pé em Deus e fé na tábua". Axé.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Fernando Pessoa -- em clima natalino II

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Idéia é bom


... Ele tinha um tom de voz sereno e intimista. Não era muito alto nem baixo. Usava um óculos e esboçava uma futura carequinha. Tinha um brinquinho na orelha esquerda e parecia ser muito organizado. Nas aulas de música notei que os Cd´s estavam sempre numa caixa e envoltos em papel bolha. Além disso, sempre foi muito exigente com os trabalhos. Perfeccionista, não admitia erros de ortografia e tarefas fora de data.

Numa prova eu pretensiosamente finalizei minha dissertação com uma citação de Guimarães Rosa “Minha porta é para o nascente”. Ele subliminhou e escreveu em vermelho “bonito”. Eu me senti toda bonita. Pelos meus pensamentos, pelas minhas idéias e por ter extraído dele essa frase...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

coisas que eu pensei da conversa de ontem

-- Catchup no lanche é uma delícia. Desde que não tire sabor do lanche.
-- Sobremesa é perigoso.
-- A gente é muito mimado. E tem medo de crescer.
-- Tá na hora de diminuir o ritmo, definitivamente.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Barthes

“ Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de se-lo, porque temo que meu ciume machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”.

Fernando Pessoa -- em clima natalino

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Flor de laranjeira

Me lembra Oxum.
Me lembra Sevilha.
Me lembra tudo que é bom.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Eu vim de lá pequenininha


Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho...
A amizade, história de perdões incessantes. Com o passar do tempo perdemos a paciência para a história, já não nos importa perdoar e ser perdoados. Essa aeróbica interior cansa, miúda.

Carta de Mãe X

... você é muito mais sensata que a sua mãe maravilhosa e louquilda. Dá aquela loucura animal quando vejo um dos meus filhotes mal e aí---"Da-lhePorradas"".Muitas porradas. Nem sempre justas mas todas com muita fôrça de mãe. Eu sou assim. Você acha que eu vou melhorar????? Eu acho que não!

domingo, 16 de dezembro de 2007

sábado, 15 de dezembro de 2007

Ines Pedrosa

Tornarvas tua uma graça que era minha, e essa anedota voltava para mim, aumentada, alvitada pelos pontos de humor que tinhas ganho entretanto no coração de alguém, à minha custa.


Eu rezo-te para que me deixer amar ouro com a ternura desempregada que ficou de ti. Para nada. Porque era para nada que eu te queria – para ficar sentado no diamante bruto da tua alma, e descobrir nesse miradouro as luzes residuais da minha vida.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

né?

Pra que a gente se contentar com um pão na chapa se a gente pode ter um "pa amb tomaca", né Nata?
AMO

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Carta da Nata

1) Eu amo a sua mãe. Nem Freud, nem Saramago, nem Dr. Eva, nem Rosely Sayão, nem Coetzee. D. Ana deveria ganhar o Nobel da Sabedoria em todos os sentidos. Uma nova categoria a ser inventada e que sua mãe ganharia de lavada desses abestados e burros.
2) Eu amei falar com vc ontem. Marilinha faz muita falta na minha vida.
3) Instalei o Widget do Estadão no meu computador, assim a gente fica mais pertinho!
4) Mázi, vc participa da produção do país, é verdade! Que orgulho da minha pequena!
5) Descobri que preciso de um novo nome, Nataly, e além do mais com la i griega, me faz pensar que é nome de gente indecisa. Tô fazendo um bolão, se tiver alguma sugestão me avisa. E tbm preciso de um sobrenome.
6) Amo a sua mamis de novo, achar que a vida é uma canção do Tom Jobim, é ótemao. Mãe e filha são cronistas natas. E eu as amo muuuiito!beijocas da Nata

Carta de Mãe IX

Ele é um nenê Marilia e, provavelmente, vai crescer quando todos os amigos já estiverem velhinhos.
Você, ao contrário ,é madura, já participa da produção do país, mora sozinha, sabe controlar seu dinheiro e é dona do seu lindo narizinho!!!!! O Decinho, meu amigo do povão, nunca cresceu. Até hoje é um nenezão, gastou toda a fortuna do pai e passava dias a fio ouvindo jazz e achando que a vida é uma canção do Jobim.Tem gente assim.Não são maus---são mimados e incapazes de saírem de si.
É uma pena porque o tempo passa e eles ficam.É problema deles mesmo. Um beijo da MOOOOOOMY

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Grande sertão -- respiro.

" Não estou contando? Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu -- como é que eu posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele ate o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim".

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

c´est finis

Coração do tamanho de uma azeitona. Alívio do tamanho do mundo.
9,5. Justo.

Coisas que eu pensei da análise de hoje

-- Ter leveza não significa desencanar das coisas --- siginifca escolher corresponder ou não às expectativas dos outros.
-- Vaidade é uma das piores coisas que um jornalista pode cultivar.
-- É muito importante tomar as rédeas.
-- Tomar uma decisão agressiva, não me faz, AT ALL, uma pessoa agressiva.
-- Ups! Acontece. Sorry baby, but i will never forgive you.
-- hehehe ( nada não -- segredo).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Carta de Mãe VIII

Ma-menor,
Já passei(e ainda passo as vezes)por períodos idênticos. Como dizia a sábia vovó:-Isso passa! - A gente não nasce sabendo ser feliz e sabendo sofrer. A gente aprende tudo e nosso mestre é oTempo. Isso não significa que a gente fique paralizada. Temos que dar"start", né? A Europa sempre será um sonho mas ele virou realidade prá voce e foi bonito. Nosso"espinho" não é geográfico. Prá onde a gente for ele vai com a gente. Essa alternância de dor e alegria é que é o viver.Você é uma pessoa maravilhosa e eu tenho certeza disso. Dentro da ostra tem uma pérola. Filhinha eu te desejo, de coração, toda a felicidade do mundo. Procure-a, lute por ela, dê a mão prá voce mesma e pé na vida.
Beijo e benção especial da MAAAAAmis

Para cor da borboleta que clama por atencióóón

"... Talvez a mais profunda melancolia do viajante esteja no fato de que a alegria da volta mistura-se sempre alguma coisa mais dificil de se descrever, a ideia de que o que lhe fez tanta falta conseguiu continuar vivendo sem ele, e de que para possui-lo de verdade ele deveria permanecer pra sempre onde esta aquilo que lhe faz falta. Mas, com isso, ele passaria a ser alguem que nao pode ser, aquele que fica sempre em casa. O verdadeiro viajente vive da sua dor, da tensao entre a alegria de reencontrar e a tristeza de deixar novamente; e, ao memo tempo, essa dor eh a propria essencia de sua existencia, ele nao se sente em casa em nenhum lugar. Onde quer que esteja, percorrendo o mundo, ele sofrera sempre de uma carencia, porque eh o ETERNO PEREGRINO ..."

Relendo Diário de viagem


“...Já consigo distinguir certas nuances do nada, todos aqueles barulhos quase inexistentes, o zunir longínquo dos insetos, a lenta batida de asas de um casal de pombos, o vento nos àlamos, os quais todos juntos, formam o silêncio” Cees Nooteboon

Lê mouffe

Meu pai já estava insistindo há algum tempo para conhecermos a Rue de Mouffetard. É lá o mercado das manhãs dominicais. Mas com o frio, é sempre difícil vencer a preguiça e sair logo cedo. Hoje conseguimos. A coisa mais linda! E típica. Todas as Fromageries com seus 184 tipos de queijos a mostra. As boulangeries exalando o pecaminoso odor das baguettes. Filas que davam a volta no quarteirão. E os franceses ali, com seus carrinhos, escolhendo cuidadosamente, os ingredientes pra o almoço de domingo. Movimento, barulho e agitação. E de repente... Vazio. Um silencio ensurdecedor dominou a rua. Subimos até as arenas de Lutece. E mais silencio. Lembrei então que hoje é domingo e que é hora do almoço. Cada um em casa com a sua família. A rua que borda as arenas de Lutèce é cheia de apartamentos lindinhos.

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Na rua não há viva alma.

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Maga Mestra

" Eu não passo de uma vírgula na vida. Eu que sou dois pontos. Tu és minha exclamação. "

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

BRIGA DO DIA

Querido,
Fiquei pensando ontem a noite em toda a nossa conversa. Acho que eu não tinha que ter tocado naquela assunto com vc. Ok, tropeços. Acontecem. A gente que vai se conhecendo devagar, aprende -- devagar também -- em que pedrinhas não devemos pisar. Ainda mais porque é muito dificil adivinhar as coisas né? Então eu não sei exatamente o que pode te ofender o te machucar. Mas a gente aprende, não é verdade?
Por isso também eu te mostro as minhas pedrinhas que vc não deve pisar, pra -- repito-- não haver mais tropeços. Eu não gosto de punição e tampouco quando vc não é delicado comigo. Se vc ficar chateado comigo é melhor que me peça pra ficar longe -- eu respeito. Do contrário, querido, não me agrida. Não é drama, não é auê. Não sou uma pessoa de "auês" quando diz respeito aos meus afetos. Aliás, me agride vc falar isso. Eu sou séria. Não sou passinal, eufórica e nem voraz, e portanto, não fico reclamando da vida e chorando pelos cantos. Quando eu tenho uma preocupação ela é minha e legítima. Talvez não seja pra vc, mas é pra mim.
Enfim, sem mais delongas, acho que a gente para de tropeçar quando a gente aprende onde pisar. Isso vale pra mim e pra vc.Te digo uma coisa: não fico colocando o dedo nas suas feridas, nem apontando seus defeitos -- quem tem teto de vidro, amore, não faz isso. Desculpa se te ofendi.

Beijos
Mazi

Querida Nataloka,

Ontem fui entrevistar o Amyr Klink.
O Escritório dele é tudo que a gente imagina. Pedaços de barco, coisas que ele mesmo faz. Acredita que eu cheguei e ele estava regando o jardim? Aí ele me disse assim: "Ué, e a Nataly, não vem? Cadê ela?" E eu: "Ih Amyr, nem me fale... to com tanta saudade dela. Mas vc sabe como é né... ela é sagitariana e tem essa coisa de viajante, um dia quando vc vê : beijotchau, foi embora". Depois da cara de decepção dele, me serviu um café e me disse uma coisa importantíssima. Que detesta espírito aventureiro, porque o termo aventura remete a alguém que vai e que não volta mais. E o melhor de ir, segundo ele, é saber que pode voltar sempre. Eu adorei isso. Achei lindo e verdadeiro. Aí ele me contou que a próxima viagem dele pra Antártida, ele faz questão da nossa presença: " a gente captura a Nataly ali em mallorca e leva ela com a gente". Achei uma idéia magnífica, que tal?
A entrevista correu bem. Só fiquei imaginando nós duas com nosso super senso de "precisão, cálculo e coordenação" :) tentando manejar aquele barco entre as geleiras...
Querida,
beijo no seu coração.
Mazi

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Ah priiima porque a gente é assim mesmo...

A gente é bagunçada, atrapalhada, confusa...
Perde os prazos do TCC, briga, machuca, nunca aprende a dizer NÃO, se relaciona com as pessoas mais malucas.
Mas não nos cansamos te tentar conquistar algo: neles, na gente mesma, no mundo inteiro-- se for possível ( isso é síndrome de quem estudou lá no SC, vc sabe né?).
Agora que tá chegando o final do ano, vale a pena pensar nessas bobagens mesmo. Fazer um banho cheio de ervas cheirosas, deitar a cabeça no travesseiro e saber que vai sonhar a noite inteirinha e pensar quem a gente vai levar pra frente.
Tu tá comigo Re. Nós, a joaninha e toda sorte que 2008 guarda pra gente.
no madness, no crazy things. JUST GETTING HIGHT WITH A LITTLE HELP FROM OUR FRIENDS.
Amigo secreto?
Prima, beijo no cuore, da CRÔ.